O debate sobre a evasão no movimento junino não pode mais ser adiado. Os números e, principalmente, a realidade vivida nos bastidores das quadrilhas revelam um cenário preocupante.
No meu ponto de vista, o maior responsável pela evasão cultural junina é a falta de fomento nas bases. Não existem políticas contínuas voltadas para a formação da nova geração. Não há programas estruturados de incentivo à participação de crianças e adolescentes, nem estratégias permanentes para aproximá-los da cultura junina.
Sem base, não há futuro.
Hoje, vemos um movimento cada vez mais concentrado na competição. Títulos, troféus, rankings e eventos acabam ocupando o centro das atenções. Enquanto isso, a formação cultural, a renovação de integrantes e o fortalecimento das comunidades ficam em segundo plano.
As entidades que representam o segmento deveriam liderar esse diálogo junto ao poder público, buscando soluções estruturais e políticas de longo prazo. Mas o que se percebe é uma priorização quase exclusiva do calendário competitivo.
Decepções que afastam
Outro fator determinante são as decepções.
Muitos integrantes sacrificam tempo, recursos próprios, convivência familiar e até oportunidades profissionais para construir um espetáculo. Quando esse trabalho é desmerecido dentro de um modelo de competição pouco transparente ou difícil de compreender, o resultado é frustração.
E frustração repetida gera afastamento.
Quantos talentos já desistiram após anos de dedicação? Quantos coordenadores, coreógrafos, marcadores e dançarinos simplesmente decidiram que não vale mais a pena?
Trabalho formal em risco
Existe ainda um fator gravíssimo que pouco se discute: o impacto na vida profissional.
Muitos integrantes acabam enfrentando conflitos em seus trabalhos formais por conta da dedicação intensa ao movimento, principalmente no período junino. Atrasos, faltas, cansaço extremo e desgaste físico podem comprometer vínculos empregatícios.
Sem políticas de valorização e sem reconhecimento institucional, o integrante fica sozinho para arcar com as consequências.
E o ego?
Muito se fala sobre o desejo de alguns de dançar apenas em grandes grupos ou sobre o ego que permeia o movimento. Sim, isso existe. Mas, no meu ponto de vista, é a menor fatia do problema.
O ego impacta, mas não é mais grave do que a ausência de políticas de base, do que as decepções acumuladas ou do que os prejuízos na vida profissional de quem se dedica à cultura.
E daqui a cinco anos?
Se não houver uma mudança de postura, se não houver investimento real na formação de novos integrantes, o que veremos no São João daqui a cinco anos?
Grupos menores.
Dificuldade para fechar elenco.
Dependência de poucos nomes.
Desgaste ainda maior.
O São João sempre foi resistência, comunidade e construção coletiva. Mas resistência sem renovação se torna sobrevivência.
E sobreviver não pode ser o objetivo de um movimento tão grandioso.
Fica o alerta.
E fica a preocupação.