O São João de Maracanaú, um dos eventos juninos mais conhecidos do país, ganhou recentemente uma ação de divulgação internacional. Representantes do município foram enviados a Buenos Aires para promover a festa e apresentar elementos da cultura nordestina ao público argentino.
A iniciativa, que poderia ser motivo de celebração para o movimento junino, acabou gerando críticas e questionamentos dentro do próprio cenário cultural. O motivo é simples: quem representou o São João de Maracanaú não foram quadrilheiros ou integrantes de grupos juninos do município, mas sim integrantes de uma empresa de animação de festas.
A escolha foi vista por muitos como uma gafe institucional e, principalmente, como um sinal de desvalorização de quem realmente constrói a tradição junina da cidade.
Onde estão as quadrilhas de Maracanaú?
Historicamente, Maracanaú sempre foi reconhecida por possuir quadrilhas juninas fortes e atuantes dentro do movimento cultural do Ceará. Grupos que há décadas participam de festivais, movimentam comunidades e mantêm viva uma das expressões mais marcantes da cultura popular nordestina.
São esses grupos que, ano após ano, dedicam meses de preparação, ensaios e produção para levar aos arraiais espetáculos que representam a identidade do São João.
Diante disso, a ausência de quadrilheiros na ação internacional levanta um questionamento inevitável: por que quem realmente faz o São João acontecer não foi escolhido para representar essa cultura fora do país?
Contradição cultural
A situação chama ainda mais atenção quando se observa a dimensão do próprio São João de Maracanaú, evento que reúne milhares de pessoas e é frequentemente citado entre os maiores festejos juninos do Brasil.
Enquanto o município investe na promoção da festa e na projeção do evento para além das fronteiras nacionais, representantes do movimento junino apontam que a valorização das quadrilhas locais ainda deixa muito a desejar.
O episódio também reacende debates recentes sobre as prioridades culturais do município. Há pouco tempo, repercutiu no meio junino a informação de que a prefeitura patrocinou um grupo de carnaval de outra cidade, enquanto quadrilhas do próprio município continuam enfrentando dificuldades e buscando maior reconhecimento.
Quem faz o São João
Promover o São João de Maracanaú internacionalmente é uma iniciativa importante e que pode fortalecer ainda mais a visibilidade da cultura nordestina. No entanto, para muitos integrantes do movimento junino, essa promoção precisa caminhar junto com a valorização de quem mantém essa tradição viva.
Porque, no fim das contas, o São João não é feito apenas de cenários, figurinos ou apresentações simbólicas.
Ele é construído por pessoas.
Pelos quadrilheiros que ensaiam durante meses, pelos grupos que resistem ano após ano e pelas comunidades que fazem da quadrilha junina muito mais que um espetáculo.
Fazem dela cultura.