Enquanto a gestão ostenta um orçamento milionário e recebe repasses vultosos do Governo Federal, grupos juninos ficam “a pé”, expondo o descaso com a tradição que é o coração do Vale do Jaguaribe.
DA REDAÇÃO Jaguaruana, CE
O mês de maio deveria ser de ajustes finais, costuras de figurinos e ensaios intensos para as quadrilhas juninas de Jaguaruana. No entanto, o clima entre os artistas locais é de indignação e incerteza. A gestão do prefeito Elias do Sargento (2025-2028) confirmou a negativa de transporte para os grupos que representam o município em competições e festivais pelo estado.
A decisão choca não apenas pelo impacto cultural, mas pela gritante contradição com o slogan oficial da prefeitura: “Mais Trabalho. Mais Futuro.”. A pergunta que ecoa nas ruas e redes sociais é direta: como pode haver futuro em uma cidade que nega apoio à sua própria identidade cultural?
O Peso do Descaso: Números não mentem
A justificativa de “contenção de despesas” ou “falta de verba”, comumente utilizada por gestões em crise, não encontra eco na realidade financeira de Jaguaruana. Com uma população estimada em mais de 31 mil habitantes, o município possui um fôlego financeiro que torna a negativa do transporte incompreensível sob o ponto de vista administrativo.
Dados apontam que Jaguaruana opera com um coeficiente 1.6 no Fundo de Participação dos Municípios (FPM), o que garante repasses mensais que variam entre R$ 2,5 milhões e R$ 3,5 milhões apenas desta fonte federal. Com um orçamento anual que ultrapassa a marca dos R$ 130 milhões, o custo do combustível e da logística para atender aos grupos juninos representa uma fração irrelevante (menos de 0,1%) do montante total gerido pelo gabinete do prefeito.
“Negar um ônibus para um grupo que ensaiou seis meses é uma decisão política, não financeira. É escolher onde investir, e o prefeito Elias do Sargento está escolhendo deixar a cultura de fora”, afirma um integrante de um grupo local que preferiu não se identificar por medo de represálias.
Cultura: O “Trabalho” e o “Futuro” que a Gestão Ignora
O São João em Jaguaruana não é apenas entretenimento; é uma cadeia produtiva que gera trabalho para costureiras, artesãos, coreógrafos, músicos e motoristas. Quando a prefeitura corta o transporte, ela trava essa engrenagem econômica.
Além disso, as quadrilhas são, comprovadamente, ferramentas de inclusão social para a juventude. Ao inviabilizar a participação desses jovens em festivais, a gestão contradiz seu próprio marketing. O “Mais Futuro” prometido nas placas e redes sociais parece não incluir o jovem que dança, que brilha e que leva o nome de Jaguaruana para o resto do Ceará.
O Silêncio do Gabinete
Até o fechamento desta matéria, a prefeitura não havia apresentado uma nota técnica justificando os critérios para a interrupção do apoio logístico, nem um plano de contingência para salvar o calendário junino da cidade.
O espaço segue aberto para que o prefeito Elias do Sargento explique à população como pretende sustentar a promessa de um “futuro melhor” enquanto apaga as luzes do palco principal da nossa tradição.