Enquanto a gestão municipal engaveta projetos e “vereadores quadrilheiros” se omitem, mais de 40 anos de patrimônio e cultura popular sobrevivem de improviso e indignação.
DOSSIÊ ESPECIAL | CULTURA POPULAR EM RISCO: Há exatamente 1 ano, em agosto de 2025, os tratores da Prefeitura de Fortaleza destruíram a sede do Instituto Cai Cai Balão em plena atividade cultural. Hoje, após dezenas de reuniões, fotos para redes sociais e promessas de reconstrução, o sentimento da comunidade do Grande Pirambu é um só: REVOLTA com a paralisia burocrática, o descaso da gestão municipal e o silêncio covarde dos políticos da cidade.
I. A Tratorada na Cultura: Um Crime Contra a Memória Popular
Há mais de quatro décadas, o Grande Pirambu respira a resistência cultural soprada pelo Instituto Cai Cai Balão (Ponto de Cultura). Sob a liderança dedicada do Mestre Guardião Antônio Fábio Mendes Lessa (Fábio Lessa), a instituição se consolida há gerações como um pilar inestimável de formação artística, educação patrimonial, cidadania e inclusão social para milhares de crianças, jovens e famílias periféricas.
Entretanto, em agosto de 2025, a história da comunidade foi violentamente golpeada. Sob a justificativa de cumprir determinações do Ministério Público e da SPU para ordenamento da orla na Vila do Mar, tratores da Prefeitura Municipal de Fortaleza avançaram sobre a sede do Instituto. A ação destruidora ocorreu de surpresa, sem notificação prévia específica, sem diálogo com a diretoria e — o que torna o ato ainda mais absurdo — no momento exato em que crianças e jovens realizavam uma oficina sociocultural dentro do prédio.
“A cena de um trator derrubando paredes decoradas com a arte junina enquanto crianças aprendiam e ensaiavam chocou a cidade. Indumentárias históricas, troféus, instrumentos musicais e documentos foram expostos ao tempo e ao entulho, exigindo uma força-tarefa comunitária urgente para evitar a perda total do nosso patrimônio.”
— Equipe do Instituto Cai Cai Balão
II. A Cronologia da Enganação: Reuniões, Poses para Fotos e Papel Mofado
A comoção pública foi imediata. Diante da intensa repercussão na imprensa e nas redes sociais, a gestão municipal veio a público prometer acompanhamento pessoal e rigor para garantir a reconstrução do espaço. Criou-se um “Grupo de Trabalho” intersetorial reunindo secretarias municipais (Secultfor, Educação, Regional 1, etc.). Prometeu-se reparação total e celeridade.
Hoje, transcorridos 365 dias daquela tratorada, a análise fria dos fatos prova que o Grupo de Trabalho serviu apenas como anestésico para apaziguar a opinião pública:
| Momento | Promessa / Encaminhamento da Gestão | Realidade Atual (Agosto/2026) |
|---|---|---|
| Agosto / 2025 | Demolição sumária da sede durante atividade cultural. Criação do Grupo de Trabalho. | TRAGÉDIA: Destruição física da sede e perda do espaço próprio. |
| 1ª Reunião GT | Promessa de nova sede e guarda emergencial do acervo em escola. | IMPROVISO: Acervo levado para a ACAMP e espalhado por casas de diretores. |
| 2ª Reunião GT | Definição do terreno (ao lado da Escola Areninha Pirambu) e visita técnica da SER 01. | APROVADO: Terreno aceito pelo Instituto, mas largado no mato. |
| 3ª Reunião GT | Apresentação de planta baixa preliminar. Promessa de envio do projeto executivo e cessão de uso. | ENGAVETADO: Nenhum contrato assinado ou projeto executivo entregue. |
| Apoio SME | Cessão temporária de espaço na Escola Cristo Redentor para ensaios e oficinas. | PALIATIVO: Sem sede administrativa e sem espaço para o acervo completo. |
| Agosto / 2026 | 365 DIAS DE SILÊNCIO: Nenhuma informação oficial sobre aprovação financeira ou início de obras. | PARALISIA TOTAL: Desrespeito absoluto com a cultura periférica. |
III. A Humilhação do Acervo Espalhado pelas Casas da Periferia
É profundamente humilhante que um Ponto de Cultura reconhecido, premiado e filiado à IOV Brazil, com mais de 40 anos de história, continue sobrevivendo à custa de favores e improvisos. A cessão de salas na Escola Cristo Redentor — pela qual a instituição expressa enorme gratidão — é uma medida emergencial que não substitui uma sede própria.
Atualmente, figurinos históricos de valor inestimável, instrumentos de percussão, equipamentos de som e acervos pedagógicos continuam amontoados em salas de estar e quartos de membros da comunidade. Cupins, umidade e a falta de espaço adequado ameaçam destruir aquilo que o trator não conseguiu esmagar. Até quando a cultura do Pirambu viverá de favores enquanto o orçamento público financia eventos milionários no centro da cidade?
PROVOCAÇÃO DIRETA AOS “VEREADORES QUADRILHEIROS”
Na época do São João, o plenário da Câmara Municipal de Fortaleza transborda em discursos emocionados. Dezenas de vereadores sobem à tribuna para se declararem “amantes da cultura popular”, “defensores dos festejos juninos” e “padrinhos do movimento quadrilheiro”. Publicam vídeos produzidos no Instagram, vestem camisas xadrez e posam sorridentes ao lado dos troféus das quadrilhas.
Mas onde estão esses mesmos vereadores agora?
Cadê os parlamentares que se dizem representantes do movimento junino na hora de bater na porta do Prefeito e cobrar a reconstrução da sede do Instituto Cai Cai Balão? Onde estão as emendas parlamentares de bancada, os requerimentos de urgência ou a convocação de audiências públicas para exigir respostas?
A cultura popular da periferia não precisa de aplausos convenientes em véspera de eleição ou no mês de junho. Precisa de teto, estrutura, dignidade e respeito nos 365 dias do ano. Calar-se diante de um ano de paralisação e deboche burocrático contra o Ponto de Cultura do Pirambu é ser cúmplice do apagamento da tradição junina da nossa cidade!
IV. O Grito de Indignação: Exigimos Prazos, Licitação e Obras Já!
O Instituto Cai Cai Balão sempre pautou sua atuação pelo respeito às instituições, pelo diálogo civilizado e pela boa-fé. A instituição compareceu a cada convocação, participou dos debates técnicos, aceitou as opções de terreno indicadas pela própria Prefeitura e aguardou pacificamente pelos prazos legais.
Entretanto, a paciência da comunidade do Grande Pirambu CHEGOU AO FIM. Paciência não pode ser confundida com subserviência. Exigimos publicamente do Poder Executivo Municipal, da Secretaria Municipal da Cultura (Secultfor) e da Secretaria Regional 1 providências imediatas: