Foto reprodução: Site quadrilhas.com
O movimento junino brasileiro vivenciou mais um capítulo histórico em Brasília com o encerramento do III Simpósio Nacional de Quadrilhas Juninas. Mas, por trás dos aplausos e das deliberações oficiais, paira uma incerteza inevitável: as propostas finalmente sairão do papel ou seremos testemunhas de mais uma carta de intenções engavetada?
Entre os dias 20 e 22 de agosto de 2026, a capital federal recebeu delegações de 19 estados e do Distrito Federal. Durante três dias de debates, palestras e grupos de trabalho, representantes de todas as regiões do país debateram os rumos da cultura junina, resultando na aprovação de uma ampla agenda nacional e na consolidação da chamada Carta de Brasília 2026.
É preciso reconhecer que a realização de um simpósio com essa abrangência é uma ação de extrema importância e absolutamente necessária para o fortalecimento do setor. Esse tipo de iniciativa, inclusive, deveria ser replicado com maior frequência nos estados e contar com uma organização estruturada e descentralizada para garantir efetividade em cada município. O fato é que o encontro aconteceu e uma série de ações cruciais foi divulgada. Agora, o que resta ao movimento e à imprensa especializada é acompanhar de perto para saber se tais propostas serão realmente executadas ou não.
Segundo publicação do site Quadrilhas.com, o conjunto de propostas aprovadas abrange desde a gestão financeira e a inserção da cultura junina nas escolas até a reformulação dos critérios de avaliação de concursos e mecanismos de salvaguarda. A promessa das entidades organizadoras e das autoridades presentes é de que, a partir de agora, o movimento passa a contar com um direcionamento institucional sólido e uma articulação sem precedentes com o poder público.
Confira na íntegra o conjunto das propostas aprovadas
Economia Criativa e Sustentabilidade Financeira
- Captação de recursos para o Concurso Nacional da CONFEBRAQ, com divulgação de apoiadores;
- tempo total corrido no Concurso Nacional, reunindo produção, apresentação e dispersão, com gestão livre pelas quadrilhas;
- assessoria jurídica e contábil para formalização;
- guia de orientação para Lei Rouanet;
- categoria “Quadrilhas Juninas” nos editais federais;
- Escola Nacional do Movimento Junino em formato EAD;
- audiência pública nacional;
- 4º Simpósio Nacional com autoridades;
- reconhecimento das quadrilhas como Escolas Livres da Cultura;
- ampliação de editais para quadrilhas infantis;
- atuação das quadrilhas nas escolas.
Educação, Cultura e Salvaguarda
- Integração das quadrilhas juninas ao currículo da Educação Básica por articulação MEC/MinC;
- realização do Festival Nacional de Quadrilhas Juninas do Brasil;
- parceria permanente entre quadrilhas, escolas e comunidades por meio da Política Cultura Viva e dos Pontos de Cultura.
Inovação e Espetacularização
- criação de acervos digitais estaduais;
- matriz estética de referência regional;
- instrumento de valorização de mestres e salvaguardas;
- fiscalização das ações e assembleias das federações filiadas à CONFEBRAQ.
Concursos e Circuitos Competitivos
- formação nacional respeitando as particularidades estaduais e regionais;
- simpósios estaduais;
- Congresso Técnico antes do Concurso Nacional;
- simpósios para quadrilhas mirins;
- valorização da contribuição das mães LGBTQIAPN+ e combate à intolerância.
Formação, Inclusão e Desenvolvimento Humano
- papéis de destaque independentemente de gênero;
- espaços permanentes de enfrentamento ao preconceito;
- encontros de pesquisadores;
- debates sobre acessibilidade na dança;
- letramento junino;
- diversidade nas próximas edições do Simpósio.
Performance Contemporânea, Estética, Dramaturgia e Dança
- banco nacional de dados das quadrilhas juninas;
- Tema como critério próprio de avaliação;
- Casamento como critério próprio de avaliação;
- atualização do regulamento da CONFEBRAQ;
- núcleo permanente de fomento às quadrilhas infantojuvenis;
- formação técnica nacional de avaliadores com enfoque multicultural;
- consideração das sinopses durante as avaliações.
O peso do passado: entre o otimismo do discurso e a realidade dos grupos
Apesar da robustez técnica do documento aprovado e do entusiasmo que costuma marcar o encerramento desses encontros, o sentimento entre brincantes, figurinistas, marcadores e diretores de grupos por todo o Brasil é de cautela prudente. O motivo é simples e indiscutível: a memória recente do movimento.
Nos dois últimos simpósios nacionais, a narrativa construída seguiu exatamente a mesma fórmula. Tivemos discursos acalorados sobre a força transformadora da cultura popular, registros fotográficos ao lado de representantes do governo e promessas categóricas.
Entretanto, quando as luzes dos auditórios se apagaram e a poeira baixou, a realidade que sobrou nos grupos foi de abandono. Absolutamente NADA do que foi pactuado nas edições anteriores foi efetivamente executado ou transformado em legislação funcional. As quadrilhas continuaram fazendo rifas para comprar tecido, acumulando dívidas pessoais para colocar o espetáculo na rua e enfrentando editais burocráticos e genéricos que sequer entendem a dinâmica da cadeia produtiva junina.
“Agora vai!”: a promessa renovada e a cobrança necessária para 2027
Nesta edição de 2026 em Brasília, contudo, a liderança institucional insiste em um novo tom. As promessas foram renovadas sob o compromisso de que “agora sim” os canais com os Ministérios da Cultura e da Educação estão abertos e que a Carta de Brasília não será um documento engavetado. Há quem garanta que a maturidade política demonstrada nas plenárias impedirá que os encaminhamentos caiam no esquecimento.
O movimento junino não é apenas folclore ou entretenimento sazonal do mês de junho; é uma indústria cultural que movimenta cerca de R$ 9 bilhões de reais no país, envolve mais de milhões de pessoas e gera emprego para milhares de artesãos, costureiras, músicos e técnicos. Tratar essa dimensão com amadorismo ou promessas vazias é uma desfeita com a própria história da cultura brasileira.
Como fazedores de cultura e veículo de imprensa especializado, fazemos questão de deixar este documento gravado na história do movimento. Torcemos sinceramente para que cada item da Carta de Brasília se converta em ação concreta nos municípios e estados.
Porém, as palavras precisam de provas. Deixamos aqui o nosso compromisso público: em 2027, voltaremos a esta mesma matéria, ponto por ponto, para analisar o que realmente foi executado após o simpósio de 2026. Verificaremos o que virou edital, o que virou política nas escolas, o que mudou nos julgamentos e o que permaneceu estagnado no campo das falsas esperanças.
Até 2027. O movimento junino estará observando e cobrando.