No dia 7 de fevereiro de 2026, aconteceu, pela primeira vez no interior do Ceará, a assembleia da Federação de Quadrilhas do Ceará. Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, uma região que respira a cultura junina, sediou o evento e recebeu os participantes com apoio institucional, inclusive com a presença da prefeita. O encontro é destinado à revisão do regulamento e representa um dos momentos mais cruciais para propor melhorias estruturais ao movimento junino.
Do ponto de vista organizacional, o evento foi bem executado. Estrutura adequada, recepção simpática e até decoração temática junina e almoço para todos marcaram positivamente o ambiente. Também foi muito positiva a participação ativa dos grupos do Vale do Jaguaribe, algo que historicamente não acontece com tanta força. É importante frisar que quem participa das decisões ganha mais legitimidade para criticar e cobrar depois.
A assembleia iniciou efetivamente por volta das 10h da manhã, após uma cerimônia protocolar com falas de uma mesa institucional. Esse atraso já me incomodou, pois na assembleia de 2025 não foi possível concluir a análise completa do regulamento por falta de tempo. Existe um padrão recorrente: após o horário do almoço, parte significativa dos participantes se dispersa, o que enfraquece o processo democrático e favorece quem chega com articulações prévias e propostas estrategicamente alinhadas.
Outro rito tradicional que considero pouco produtivo é a leitura integral do regulamento durante a assembleia. Todos os participantes têm acesso prévio ao documento e poderiam realizar essa leitura antes do evento. O exemplo dos grupos do Vale do Jaguaribe foi inspirador: eles se reuniram previamente, estudaram o regulamento e consolidaram suas propostas em um documento unificado, agilizando e qualificando o debate.
Embora a assembleia funcione teoricamente sob o princípio da democracia, quem vive o movimento por dentro sabe que esse espaço é historicamente influenciado por articulações políticas, negociações de bastidores e estratégias de convencimento que nem sempre priorizam o interesse coletivo.
Mesmo com um atraso aproximado de duas horas, o auditório iniciou o dia com cerca de 50 pessoas aptas a propor e votar mudanças. Ao longo do dia, esse número foi se dissolvendo até restarem cerca de 10 pessoas em momentos decisivos, o que compromete a representatividade e a legitimidade das deliberações.
Após a leitura do regulamento e o levantamento inicial de sugestões, o documento foi projetado para dar início aos debates. Pelas regras, apenas grupos e eventos filiados, representantes da comissão avaliadora e participantes com procuração legal podem ter voz. Um ponto que chamou bastante atenção foi a presença de jurados representando festivais. Na prática, grande parte das falas desses participantes foi feita sob a ótica de jurado, debatendo interesses diretamente ligados à avaliação, ainda que formalmente estivessem ali representando eventos. Não é ilegal, mas levanta questionamentos sobre conflito de interesses e equilíbrio dentro do debate.
Outro fator que prejudicou a produtividade foi o fato de alguns participantes solicitarem fala sem apresentar propostas objetivas. O ideal seria estabelecer tempo padrão para intervenções e exigir que toda fala viesse acompanhada de uma proposta clara, pronta para votação, otimizando o tempo coletivo.
Propostas aprovadas e avanços relevantes
Apesar dos entraves, algumas propostas importantes foram aprovadas, representando avanços para o movimento:
- Publicidade de ranking dos festivais com base no feedback dos grupos ao final da temporada
- Aumento da idade mínima dos avaliadores de 18 para 21 anos
- Redefinição das vagas do Festival Cearense para 1 por região mais 15 baseadas no ranking de pontuação da entidade
- Participação dos grupos na escolha dos avaliadores dos principais festivais da entidade
- Exigência de experiência mínima de 3 anos na entidade para atuar como avaliador nesses festivais, além de ensino superior ou experiência comprovada em arte e cultura
- Ampliação do número mínimo de passos tradicionais de 15 para 20
São avanços importantes, ainda que pontuais.
Pontos críticos debatidos e propostas rejeitadas
Alguns temas sensíveis geraram debates intensos, como a exigência de ensino superior para avaliadores, a limitação de quantidade de pares nas quadrilhas, a redução do número de festivais para priorizar qualidade e a divulgação pública das planilhas de avaliação.
Sobre o ensino superior, foi argumentado que, em muitos casos, ninguém consegue compreender o que o jurado escreve e que pessoas sem preparo mínimo poderiam compor mesas apenas com cursos de formação. Uma representante da comissão avaliadora trouxe uma fala extremamente pertinente ao questionar quantos fazedores de cultura e referências do movimento ali presentes possuem ensino superior. O silêncio foi revelador. Ela lembrou que formação acadêmica não garante boa escrita, caráter ou qualidade de avaliação, citando inclusive exemplos de médicos cuja caligrafia é ilegível. Reforçou ainda que caráter não vem estampado na testa e que pessoas de qualquer nível de escolaridade podem comprometer a integridade do processo. A proposta não foi aprovada.
Na pauta da limitação de pares, os grupos do Vale do Jaguaribe sugeriram um mínimo de 12 e máximo de 28 pares por quadrilha, sob o argumento de que grupos maiores seriam beneficiados. Em minha fala, citei exemplos concretos como a quadrilha Nação Nordestina, referência nacional com poucos pares e altíssimo nível técnico, além de grupos como Zé Testinha, que já adotam limitações internas. Reforcei que quantidade não significa qualidade e que, muitas vezes, o volume pode até prejudicar a estabilidade visual e coreográfica. A proposta também não foi aprovada.
Outro momento crítico envolveu a sugestão de reduzir a quantidade de festivais para priorizar qualidade na comissão avaliadora. Foi relatado que há eventos com apenas três jurados por mesa devido à sobrecarga simultânea. A direção da entidade afirmou que não poderia reduzir o número de eventos para evitar que festivais migrassem para outras entidades. Essa fala deixou claro que a quantidade tem sido priorizada em detrimento da qualidade, algo que considero preocupante.
No momento final da assembleia, sugeri que a entidade assumisse a responsabilidade de garantir, no mínimo, 1 ônibus para a logística dos grupos que representam o Ceará em festivais nacionais. A proposta foi rejeitada sob a justificativa de que a entidade não dispõe de recursos financeiros suficientes e que já busca apoio público por meio de ofícios.
Na minha visão, a logística para representar o estado deveria ser uma responsabilidade institucional fixa, garantida anualmente, independentemente de qual grupo seja o representante. Trata-se de valorizar quem leva o nome do Ceará para outros palcos do país e de fortalecer, de forma prática, o reconhecimento e o incentivo ao movimento junino.
A pauta mais sensível: divulgação das planilhas de avaliação
Na parte da tarde, já com um público bastante reduzido, entrou em debate a divulgação pública das planilhas de avaliação. Antes mesmo de eu apresentar formalmente a proposta, alguns participantes já se posicionavam contra, o que me surpreendeu positivamente por demonstrar o alcance prévio do debate.
O que mais chamou atenção foi ver dirigentes de quadrilhas que historicamente sofreram com avaliações equivocadas e resultados duvidosos defenderem a manutenção do sigilo. Jurados argumentaram que a divulgação exporia os grupos, geraria chacota entre rivais e poderia causar problemas jurídicos à entidade. Houve falas sobre caligrafia, sobre medo de exposição e até a declaração de que avaliadores deixariam de julgar caso suas planilhas fossem públicas.
Um jurado chegou a afirmar que recebe R$100,00 para avaliar e que não julgaria mais se sua planilha fosse divulgada. Outro afirmou que a entidade ficaria sem avaliadores caso a proposta fosse aprovada. O debate tomou contornos dramáticos, quase como uma novela.
Em resposta, citei exemplos de outros movimentos culturais, como o Boi de Parintins e o Carnaval do Rio de Janeiro, onde as planilhas são públicas e funcionam como material pedagógico para crescimento técnico e prevenção de manipulações. Ressaltei que a transparência protege tanto os grupos quanto a própria entidade.
Apenas os seguintes grupos votaram a favor da transparência:
JUNINA BABAÇU, ZÉ TESTINHA, FESTEJA SIARÁ, CANGAÇO NORDESTINO e TRADIÇÃO JUNINA.
A maioria votou contra. Alguns se ausentaram no momento da votação, outros preferiram não se posicionar. Isso, por si só, esclarece muito sobre o atual cenário do movimento e o medo de retaliações.
Registro meus parabéns públicos aos grupos que tiveram coragem de defender ética, transparência e segurança institucional, mesmo sob pressão.
Encerramento, reflexões e posicionamento pessoal
A assembleia foi encerrada por volta das 19h, com um público mínimo presente. Parabenizo quem teve a iniciativa de levar o evento para o interior, pois historicamente os grupos da capital concentravam grande influência nas decisões.
Espero que o evento continue rodando municípios e provocando outros presidentes sobre a importância desse espaço e do poder de propostas e votações.
Reitero que não tenho nada contra a entidade. Minha missão dentro do São João é lutar por transparência, justiça e coletivismo. O movimento junino não é menor do que outros. Ele apenas ainda não compreendeu totalmente sua força e impacto na vida de pessoas que abrem mão de suas rotinas, recursos e tempo para sustentar seus grupos.
Algumas falas ditas durante a assembleia me marcaram profundamente, como “CADA UM TEM QUE PENSAR NO SEU” e “PRECISAMOS BLINDAR OS JURADOS”. Quando os grupos compreenderem sua verdadeira força coletiva, pensamentos individualistas deixarão de ter espaço.
Não se trata de uma guerra entre quadrilhas e jurados. Trata-se da busca por um movimento honesto, transparente, justo e motivador.
Tenho esperança de que meus filhos, netos e bisnetos possam continuar usufruindo desse movimento cultural maravilhoso. Mas confesso que, diante de tantos vícios, disputas de poder e egos inflados, também sinto receio pelo futuro do nosso São João.
O movimento merece mais.
O São João merece mais.
Respostas de 2
Sempre a mesma coisa não muda nada pois as próprias quadrilha não querem mudança sobre avaliação dos jurados todas recebem suas planilhas e não adianta reclamar que não dar em nada
Depois reclamam, né? vai entender! hehe