O São João do Ceará respira por aparelhos

O São João sempre foi mais do que festa. Sempre foi pertencimento, comunidade, identidade cultural. Mas algo está acontecendo, e precisamos falar sobre isso com seriedade.

O movimento junino vive hoje um dos momentos mais delicados de sua história.

A evasão de brincantes é real, visível e crescente. Não é um discurso pessimista, é um retrato do que está acontecendo nos bastidores dos grupos. Estamos em março e já é possível contabilizar pelo menos dez quadrilhas que desistiram de participar da temporada por um motivo simples e preocupante: não há gente suficiente para dançar.

A nova geração parece cada vez mais distante das quadrilhas juninas. Os jovens não estão chegando na mesma proporção que antes. Muitos grupos enfrentam uma dificuldade enorme para renovar seus elencos, substituir veteranos e manter viva a engrenagem que faz o espetáculo acontecer.

Parte dessa realidade passa pela transformação do próprio cotidiano dos jovens. No Ceará, por exemplo, o avanço das escolas de tempo integral trouxe um impacto direto nesse cenário. E é importante deixar claro: educação deve ser prioridade absoluta. Não há discussão sobre isso. A escola precisa cobrar, formar, preparar.

Mas a cultura também educa. A cultura também forma cidadãos. A quadrilha junina ensina disciplina, coletividade, respeito, identidade e pertencimento. Ela ocupa o tempo do jovem, cria vínculos e transforma vidas.

Quando não há diálogo entre essas duas frentes, quem perde é a cultura popular.

Se nenhuma tratativa for construída entre poder público, escolas, movimentos culturais e sociedade, o cenário tende a se agravar. Sendo muito otimista, em dez anos poderemos assistir a uma redução significativa do número de grupos e da força desse movimento que hoje move milhares de pessoas.

O alerta precisa ser feito agora.

O São João, que sempre foi símbolo de força e resistência cultural, hoje respira por aparelhos. E a pergunta que precisa ecoar em todo o movimento é simples, mas urgente:

O que realmente está acontecendo com os nossos brincantes?E mais importante ainda: o que estamos dispostos a fazer para que eles não desapareçam?

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